A censura no Brasil contemporâneo

Democracia? Você deve estar brincando comigo! Em um Estado totalitário, qual é a primeira forma de restrição da liberdade? Convocam-se os artistas pró-regime e perseguem-se os revolucionários / provocadores. Denominamos esse fato de censura. Essa perseguição aos artistas em geral me enoja. No início de 2011 vi o trailer do filme "Filme Sérvio", muita polêmica foi gerada em seu lançamento na Europa, e recentemente sua exibição foi proibida (censurada) pela justiça brasileira. Ele me pareceu ser mais uma regurgitação sangrenta, e eu já estava cansado deste tipo de filme depois de ver o primeiro da série Jogos Mortais. Mas o fato de achar o filme ofensivo não pode descambar em momentos de irracionalidade e condenar os rolos de película as chamas de uma fogueira, como fizeram os nazistas ao queimar qualquer obra contra o regime hitlerista.

Outro exemplo de perseguição aos artistas revolucionários ocorreu na 29ª Bienal de Artes de São Paulo (2010). A OAB "solicitou" aos organizadores da Bienal a retirada da série Inimigos de Gil Vicente. Mas esta se recusou naturalmente. Que alívio! O fato de pensar de forma diferente da massa, ser satírico e questionador incomoda os detentores do poder e seu status quo. Outra coisa que não entra na minha cabeça é a percepção de que arte equivale a realidade ou vias de fato. Se Gil Vicente faz um desenho onde se retrata um assassinato, então ele cometeu o crime retratado! Se o diretor de Filme Sérvio captou encenações de extrema violência, então ele deve ser perseguido por isso. Que absurdo infantil. Certos psicopatas não conseguem distinguir realidade da ficção, e arte é ficção: FIC-ÇÃO!

Se você é um artista, não se amedronte ou amenize a sua expressão devido ao medo das autoridades, rompa barreiras, grite! Consequentemente, não deixe sua voz ser calada pelo eco dos porões da ditadura. Ou você quer continuar a viver em uma monarquia tupiniquim?

Uma curiosidade: há alguns anos tenho percebido um novo fenômeno mercadológico ocorrendo no universo do entretenimento. Não basta mais criar obras de arte, seja no cinema ou nas artes plásticas, que retratem beleza, virtude ou intelecto para chamar a atenção do público "consumidor". Deve-se explorar a bizarria, o devasso, o tabu e "o proibido". Essa é a fórmula para se destacar na infinidade de produções culturais que concorrem em seus respectivos mercados. Foi-se a época onde bastava colocar uma melancia na cabeça para chamar a atenção. Artistas obscuros como Gil Vicente e o diretor de "Filme Sérvio" se valeram dessa estratégia rasa de marketing para ganhar seus quinze minutos de fama, para logo em seguida voltarem ao limbo de onde nunca (talvez?) deveriam ter saído.